Internet piora escrita de jovens?
Nos últimos dias ouvi esta questão umas três vezes. Por coincidência, recebi e retuitei hoje uma pesquisa britânica que sugere que jovens que utilizam redes sociais através da internet têm mais facilidade de escrever do que os que os que não utilizam. A questão é polêmica. A filósofa Marilena Chauí não vê com bons olhos a relação entre internet e escrita, enquanto que o poeta Antonio Risério, um dos responsáveis pelo Museu da Língua Portuguesa, discorda.
Como tenho interesse em educação, e especialmente em novas tecnologias, faço algumas considerações. Por favor, elas não têm nenhuma pretensão a serem verdades absolutas, são apenas observações rápidas, opiniões pessoais. Concorde ou discorde à vontade:
1) Antes, a leitura
Antes de pensar em escrever, temos que ter o hábito de ler. É preciso o exemplo em casa. É fundamental que o jovem conviva com pessoas com este hábito, que os professores gostem de ler.
Soa radical demais, sei disso, no entanto, vejo as escolas como as maiores responsáveis por tão pouca gente gostar de ler. Quando você tem 10 anos, do nada, descontextualizado, eles te enfiam garganta abaixo um clássico qualquer. O aluno lê pra se livrar e conseguir uma boa nota. Pensa: se este é o bom, Deus me livre do resto. Assim passa a ser a rotina, livros viram inimigos.
Nossa escola se baseia em “nãos”. Tem boas notas quem responde da forma combinada. Criatividade é algo fora do padrão. Já fiz um post sobre isto, sugerindo os vídeos do Ken Robinson. Resumindo: professores que não gostam de ler, não são capazes de despertar este prazer nos jovens. Infelizmente, eles ainda são muitos.
2) Formação dos professores
As faculdades de Pedagogia e Educação se preocupam mais em replicar meta-estudos sobre seus teóricos do que tirar as salas de aula do imenso vácuo que vivem em relação aos alunos. Leia mais aqui ou caminhos neste blog sobre educação.
3) Hipertexto
Uma das mudanças mais marcantes do texto online é o hipertexto. Ele, na verdade, sempre existiu. Se você encontra notas do autor num livro, poderia ir a uma biblioteca para encontrar as fontes citadas e se aprofundar. O problema é de tempo e espaço. Na internet é muito mais rápido.
4) Vc acha?
Existem pesquisas na Internet para provar que sim ou não qualquer coisa. Este estudo irlandês disse que SMS prejudica a escrita. Neste fórum as opiniões se dividem.
O maior problema, pelo que vi, seria um temor de que o costume de abreviar palavras poderia gerar um suposto vício de linguagem. Acredito que se preocupem também que a retro-alimentação destes textos informais, de uma efemeridade absoluta, causaria uma limitação qualitativa nos novos textos.
5) Enfim, meu palpite
Primeiro acho que esta discussão nasce velha. É de uma geração em crise sem saber como lidar com a transição que vivemos. Quando isto acontece, a tendência é falar como nossos avós, idealizar o passado com um “no meu tempo era diferente”. É uma boa forma de se enganar, quando a nostalgia nos faz acreditar que tudo foi melhor.
No Brasil se lê muito pouco desde sempre. Mesmo entre as pessoas com acesso à melhor educação formal, quase não se lê. O nível dos textos sempre foi baixíssimo. Quem já teve experiência de corrigir redações de estudantes ou textos de diplomados pré-internet, sabe muito bem disso. E não estou falando nem de ortografia ou gramática, mas da construção básica de um raciocínio que se faça minimamente compreensível.
Como a metodologia das aulas não muda desde o século XIX (a única evolução deve ter sido o fim da palmatória), tenha certeza que os garotos que jogam hoje games ultra-realistas, navegam por caminhos sem fim pela Internet, acham a escola tão chata quanto achei. Muitos deles, inclusive, devem ser como eu: pensam apenas em sair dali pra jogar bola. Raros foram os professores que admirei, que me despertaram alguma curiosidade, vontade de saber.
O mundo digital pra estas crianças é o mundo real. Elas não fazem esta distinção que fazemos. Nos anos 70 fui criado em ambiente 100% urbano, no mesmo “não-espaço” das crianças de hoje. Na adolescência tive Atari, joguei no hoje patético TK 85. Eu me sentia um rato de laboratório ouvindo este mesmíssimo discurso de hoje em relação às crianças do futuro. Assim como eu, mesmo todas estas informações acessíveis, os meninos e meninas de hoje serão submetidos às mesmas metodologias de ensino a que foi submetido meu pai - nascido em 1938. Se existe algo novo, é a mais, está fora da escola.
Aliás, vou mais longe: Olavo Bilac em 1904 já se espantava com os avanços da tecnologia e como elas poderiam acabar com os livros. Desde sempre o ser humano conta histórias, seja lá em que suporte for. Eu, por otimismo, tendo a seguir a linha de pensamento deste professor. Sem dúvida hoje qualquer jovem se expressa muito mais por texto (seja SMS, email, blogs ou redes sociais) do que antigamente. Faz parte da rotina voluntária deles. Não consigo ver isso como algo ruim, rotular como sendo este o problema.
Já que temos tantas mudanças proporcionadas pelas novas tecnologias na forma de se relacionar e comunicar, acredito que o grande desafio seja aprender como a escola pode utilizar destas ferramentas para dar o salto qualitativo desejado. Elas não são a salvação de nada (pra isso é preciso um projeto bem maior), somente acredito que poderia ser uma ferramente útil. Já tem muita gente caminhando neste sentido.








